{"id":68986,"date":"2026-10-17T05:00:00","date_gmt":"2026-10-17T08:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/jornal24horas.com.br\/?p=68986"},"modified":"2026-10-17T05:00:00","modified_gmt":"2026-10-17T08:00:00","slug":"o-manual-de-seguranca-para-encontros-por-aplicativos-de-relacionamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornal24horas.com.br\/?p=68986","title":{"rendered":"O \u2018manual de seguran\u00e7a\u2019 para encontros por aplicativos de relacionamento"},"content":{"rendered":"<p>A rela\u00e7\u00e3o da comunicadora Iara Rodrigues*, 26 anos, com os aplicativos de relacionamento \u00e9 marcada por uma profunda ambiguidade. Ao mesmo tempo que sente <b>necessidade das plataformas para conhecer pessoas<\/b>, a catarinense detesta o processo de se deparar com pretendentes no ambiente virtual. Ao longo dos anos, a jovem <b>desenvolveu um complexo protocolo de seguran\u00e7a antes de aceitar ver pessoalmente<\/b> qualquer rapaz com quem trocou mensagens.<\/p>\n<p>\u201cQuando percebo que a conversa no aplicativo est\u00e1 indo para a sugest\u00e3o de um encontro presencial, l<b>evo a pessoa para outra rede social<\/b>, normalmente o <b>Instagram<\/b>. Acho o <b>WhatsApp <\/b>muito \u00edntimo. \u00c9 como se fossem etapas\u201d, relata. Os passos de Iara incluem <b>pesquisas no Google e no LinkedIn<\/b>, escolha estrat\u00e9gica do figurino, <b>uso de transporte em que a placa do carro n\u00e3o seja identificada e a checagem rigorosa do local do encontro<\/b>, preferencialmente um <i>food hall<\/i> movimentado e que ela j\u00e1 conhe\u00e7a bem.<\/p>\n\n<div class=\"mm_conteudo blog-multimidia foto\">\n<figure class=\"n--noticia__image modulo-noticia\">\n                                    <img decoding=\"async\" class=\"size-full lazyload\" data-src=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/resizer\/v2\/GYD7M6EU7VDM3BQ5SP2DZO5V7Q.png?quality=80&amp;auth=baa15bc7f50bb0d61cc3336810e969e2065a93acb2e0ed2f4246c683f3212969&amp;width=710\" alt=\"Reprodu\u00e7\u00e3o\/ChatG\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" \/><figcaption>Nos aplicativos de relacionamento, o medo tamb\u00e9m faz parte do encontro. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/ChatG<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>A experi\u00eancia de Iara traduz um fen\u00f4meno coletivo: <b>a necessidade de criar protocolos r\u00edgidos de seguran\u00e7a para conseguir encontrar pessoalmente quem conheceu na internet<\/b>. Esse movimento \u00e9 reflexo da migra\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es amorosas para o ambiente virtual (em busca de uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a), combinada aos altos \u00edndices de viol\u00eancia de g\u00eanero que atingem o mundo f\u00edsico.<\/p>\n<p>A psic\u00f3loga e psicanalista L\u00edvia Boaretto observa que os encontros rom\u00e2nticos se transformaram em um <b>\u201cfator estressor\u201d sist\u00eamico para as mulheres<\/b>, pois <b>exigem o<\/b> <b>planejamento cont\u00ednuo de estrat\u00e9gias de fuga e a conjectura de cen\u00e1rios tr\u00e1gicos<\/b> antes de abrir a porta de casa:<\/p>\n<p>\u201cComo uma mulher pode ir para um relacionamento amoroso, que deveria ser algo leve e bacana, quando o primeiro encontro j\u00e1 se transformou em estresse? Acabamos tendo de nos resguardar tanto que nos fechamos para outras rela\u00e7\u00f5es. Inevitavelmente, isso nos leva a ficar mais sozinhas\u201d, analisa.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Pesquisadora sobre viol\u00eancia contra a mulher, L\u00edvia ressalta que<b> o medo n\u00e3o \u00e9 desproporcional \u00e0 realidade:<\/b> \u201cNem todos os homens s\u00e3o iguais, mas eles precisam entender que h\u00e1 algo muito s\u00e9rio acontecendo. Em 2025, registramos o recorde de d\u00e9cadas em feminic\u00eddios, com milhares de mulheres mortas por homens\u201d, alerta.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o demonstrada encontra eco nos dados de seguran\u00e7a p\u00fablica. <b>O pa\u00eds atingiu, em 2025, a marca mais alta de feminic\u00eddios desde a altera\u00e7\u00e3o no C\u00f3digo Penal, em 2015. <\/b>O <a href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/anuario-2026.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"\" title=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/anuario-2026.pdf\">F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/a> contabilizou 1.571 casos no ano passado; um crescimento de 4% na compara\u00e7\u00e3o com as 1.504 mortes registradas em 2024.<\/p>\n<h2>Minorias e a viol\u00eancia de \u00f3dio nos apps<\/h2>\n<p>A inseguran\u00e7a no ecossistema dos aplicativos n\u00e3o atinge apenas mulheres heterossexuais. <b>Para a comunidade LGBTQIA+, pessoas pretas e pessoas com defici\u00eancia (PcDs), o flerte virtual pode virar isca para crimes de \u00f3dio, extors\u00e3o e viol\u00eancia f\u00edsica grave.<\/b><\/p>\n<p>Especialistas ouvidas pelo <b>TecMundo<\/b> identificaram que, <b>no p\u00fablico feminino heterossexual, h\u00e1 preval\u00eancia de t\u00e1ticas de manipula\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica como o <\/b><i><b>love bombing<\/b><\/i> (excesso intencional de demonstra\u00e7\u00f5es de afeto para criar depend\u00eancia) e o <b>estelionato amoroso<\/b>. Em contrapartida, <b>em apps voltados para a comunidade LGBTQIA+, a exemplo do Grindr, os golpes costumam ter desfechos fisicamente mais violentos.<\/b><\/p>\n<p>A delegada da 2\u00aa Delegacia de Pol\u00edcia de Porto Alegre, Tatiana Bastos, destaca que investiga\u00e7\u00f5es policiais revelam um <i>modus operandi<\/i> ainda mais ostensivo nessas plataformas:<\/p>\n<p>\u201cNa delegacia de combate \u00e0 intoler\u00e2ncia, realizamos a Opera\u00e7\u00e3o Moedor, focada em crimes cometidos no Grindr. Registramos casos de extors\u00e3o, o golpe do \u2018Boa Noite Cinderela\u2019, les\u00e3o corporal grave, invas\u00e3o de resid\u00eancias e espancamentos. <b>A vulnerabilidade de pessoas LGBTQIA+ e o medo do estigma social fazem com que esses grupos virem alvos frequentes de criminosos que usam o anonimato digital<\/b>\u201d, pontua a delegada, que atua no combate a crimes cibern\u00e9ticos e na prote\u00e7\u00e3o de grupos vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p><b>A m\u00faltiplas camadas de preconceito fazem com que pessoas pretas e pessoas trans enfrentem camadas adicionais de risco<\/b>, que v\u00e3o da fetichiza\u00e7\u00e3o e discrimina\u00e7\u00e3o a cen\u00e1rios em que o agressor utiliza a vulnerabilidade social da v\u00edtima para chantage\u00e1-la.<\/p>\n<p>O medo da viol\u00eancia e do anonimato virtual tamb\u00e9m molda a rotina de Jo\u00e3o Vitor Alcantara, 26 anos. Morador de Santo Andr\u00e9, no ABC paulista, o pesquisador sintetiza o dilema vivido por homens gays na transi\u00e7\u00e3o das telas para as ruas: a divis\u00e3o entre a curiosidade de conhecer algu\u00e9m e a necessidade pragm\u00e1tica de criar filtros de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p><b>Para mitigar riscos antes do primeiro \u201cdate\u201d presencial, Alcantara estabeleceu um protocolo de investiga\u00e7\u00e3o focado na rede de sociabilidade do pretendente.<\/b> A regra de ouro \u00e9 nunca aceitar encontros sem antes checar o perfil nas plataformas digitais:<\/p>\n<p><\/p>\n<p><b>Entre amigos da comunidade LGBTQIA+, o receio da extors\u00e3o n\u00e3o \u00e9 hip\u00f3tese te\u00f3rica. <\/b>O rapaz recorda o caso de um amigo que, ap\u00f3s um encontro casual marcado por app, passou a ser chantageado pelo agressor sob a amea\u00e7a de ter v\u00eddeos \u00edntimos gravados sem consentimento enviados para familiares e para o trabalho.<\/p>\n<p>\u201cEle pensou muitas vezes em n\u00e3o ir \u00e0 pol\u00edcia devido ao estigma de ser uma pessoa LGBT e por estar exposto em uma situa\u00e7\u00e3o muito \u00edntima. N\u00f3s o orientamos a buscar a delegacia presencialmente para detalhar a chantagem. Ele fez o Boletim de Ocorr\u00eancia e conseguiu a prote\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, mas \u00e9 o tipo de caso que assusta a todos n\u00f3s\u201d, lamenta.<\/p>\n<p>Quando o encontro finalmente acontece em um local p\u00fablico (geralmente, barzinhos ou cinemas de rua que ele j\u00e1 conhece), a vigil\u00e2ncia n\u00e3o se desliga. <b>Al\u00e9m do receio de golpes, surge uma segunda camada de tens\u00e3o: o medo da homofobia urbana ao demonstrar afeto.<\/b><\/p>\n<p>\u201cExiste uma ansiedade constante na comunidade. Durante o encontro em um local p\u00fablico, observo o ambiente antes de segurar a m\u00e3o ou dar um beijo. Preciso avaliar se estou seguro e se o parceiro se sente confort\u00e1vel. Isso afeta a qualidade do encontro, porque deixa de ser apenas sobre n\u00f3s dois e passa a ser sobre como a sociedade nos olha\u201d, desabafa.<\/p>\n<h2>Principais pontos abordados na cartilha de seguran\u00e7a para encontros presenciais<\/h2>\n<p>O <b>TecMundo\/Estad\u00e3o<\/b> est\u00e1 acompanhando o movimento de digitaliza\u00e7\u00e3o dos relacionamentos. Para mitigar riscos e garantir que a busca por afeto n\u00e3o termine em trauma ou preju\u00edzo, reunimos as orienta\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas da delegada <b>Tatiana Bastos<\/b>, da professora de Direito Digital <b>Rubia Ferr\u00e3o<\/b>, da advogada <b>Gisele Truzzi<\/b> e da Secret\u00e1ria de Pol\u00edticas para a Mulher do Estado de S\u00e3o Paulo, <b>Adriana Liporoni<\/b>.<\/p>\n<h3>Seguran\u00e7a digital e checagem pr\u00e9via<\/h3>\n<ul>\n<li><b>Desconfie do \u2018Love Bombing\u2019 e da urg\u00eancia:<\/b> O golpista precisa agir r\u00e1pido. Declara\u00e7\u00f5es emocionais intensas em poucos dias, promessas exageradas e apelidos carinhosos prematuros servem para criar uma falsa intimidade. Se houver qualquer pedido financeiro atrelado a um gatilho de urg\u00eancia (viagem, conta bloqueada, investimento), encerre o contato;<\/li>\n<li><b>A t\u00e9cnica da invers\u00e3o da narrativa:<\/b> Inverta o foco das perguntas. Fa\u00e7a questionamentos detalhados sobre a rotina, o trabalho e a fam\u00edlia da pessoa. Golpistas e <i>catfishes<\/i> costumam sumir ou bloquear a v\u00edtima assim que percebem que perderam o controle da conversa;<\/li>\n<li><b>Busca reversa de imagem:<\/b> Utilize ferramentas como o <b>Google Lens<\/b> para checar se as fotos exibidas no perfil do aplicativo ou <b>Instagram<\/b> foram roubadas de terceiros ou de m\u00eddias abertas;<\/li>\n<li><b>Varredura nas redes sociais:<\/b> Analise a coer\u00eancia do perfil. Contas com milhares de seguidores, mas sem intera\u00e7\u00f5es\/coment\u00e1rios reais, ou perfis sem fotos com amigos, familiares e registros de rotina s\u00e3o sinais de alerta;<\/li>\n<li><b>Cuidado com os links e a coleta de dados:<\/b> Nunca clique em links enviados por pretendentes (mesmo que pare\u00e7am mat\u00e9rias de jornais ou v\u00eddeos). Eles podem conter mecanismos para extrair dados do seu dispositivo. Evite compartilhar dados como data de anivers\u00e1rio, nomes de pets ou local exato de trabalho;<\/li>\n<li><b>Nudes e o perigo das Deepfakes:<\/b> N\u00e3o envie fotos ou v\u00eddeos \u00edntimos. A legisla\u00e7\u00e3o recente avan\u00e7ou na puni\u00e7\u00e3o da montagem de nudes e uso de Intelig\u00eancia Artificial (IA) para viol\u00eancia psicol\u00f3gica (como o art. 147-B do C\u00f3digo Penal e a Lei 15.487\/2026 no ECA), mas a remo\u00e7\u00e3o completa de um conte\u00fado que cai no <b>WhatsApp<\/b> ou <b>Telegram<\/b> \u00e9 praticamente imposs\u00edvel.<\/li>\n<\/ul>\n<h3>Seguran\u00e7a f\u00edsica e presencial<\/h3>\n<ul>\n<li><b>Escolha do terreno neutro:<\/b> Marque o primeiro encontro estritamente em locais p\u00fablicos e movimentados (como shoppings, <i>food halls<\/i> ou restaurantes centrais). Sugira o local;<\/li>\n<li><b>N\u00e3o aceite caronas nem v\u00e1 a locais isolados:<\/b> V\u00e1 e volte por conta pr\u00f3pria (de transporte p\u00fablico, t\u00e1xi, aplicativo ou carro). N\u00e3o aceite carona no primeiro encontro e evite ir para a casa do pretendente ou para locais privados locados (como <b>Airbnbs<\/b>);<\/li>\n<li><b>Rede de apoio e Sinal de Socorro:<\/b> Compartilhe a sua localiza\u00e7\u00e3o em tempo real com amigos ou familiares de confian\u00e7a. Combine um c\u00f3digo de seguran\u00e7a (um emoji espec\u00edfico ou palavra-chave no <b>WhatsApp<\/b>) para pedir socorro silencioso. Em bares e restaurantes, memorize o <i>Signal for Help<\/i> (sinal internacional de socorro feito com a m\u00e3o dobrando o polegar) para alertar gar\u00e7ons ou mesas ao lado;<\/li>\n<li><b>Aten\u00e7\u00e3o redobrada \u00e0 bebida:<\/b> O consumo excessivo de \u00e1lcool reduz o tempo de rea\u00e7\u00e3o e aumenta a vulnerabilidade. Mantenha o copo sempre sob a vis\u00e3o para evitar o golpe do \u201cBoa Noite Cinderela\u201d. Lembre-se de que as primeiras fases dessa subst\u00e2ncia causam euforia e aparente consentimento nas c\u00e2meras de seguran\u00e7a antes de provocar o apag\u00e3o de mem\u00f3ria;<\/li>\n<li><b>Postagens em tempo real:<\/b> N\u00e3o publique <i>stories<\/i> ou fotos com localiza\u00e7\u00e3o ao vivo enquanto estiver no local do encontro para evitar a a\u00e7\u00e3o de <i>stalkers<\/i> (perseguidores).<\/li>\n<\/ul>\n<h3>Verifica\u00e7\u00e3o de antecedentes e a lei<\/h3>\n<p>Com<b> a populariza\u00e7\u00e3o de aplicativos e bots que prometem puxar o hist\u00f3rico criminal de pretendentes<\/b> a partir de dados como n\u00famero de telefone ou chave Pix, surge um debate jur\u00eddico relevante sobre a Lei Geral de Prote\u00e7\u00e3o de Dados (LGPD) e o papel do Estado. O <b>TecMundo <\/b>fez, inclusive, uma <a href=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/tecmundo\/ciberseguranca\/415441-investigacao-amorosa-mulheres-usam-ia-para-filtrar-agressores-antes-de-sair-de-casa\/\" target=\"_blank\" rel=\"\" title=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/tecmundo\/ciberseguranca\/415441-investigacao-amorosa-mulheres-usam-ia-para-filtrar-agressores-antes-de-sair-de-casa\/\">reportagem especial<\/a> sobre o tema.<\/p>\n<p>A professora de Direito Digital Rubia Ferr\u00e3o ressalta que a busca individual feita por uma pessoa f\u00edsica n\u00e3o viola a LGPD:<\/p>\n<p><\/p>\n<p>Por outro lado, a advogada Gisele Truzzi e a delegada e Secret\u00e1ria de Pol\u00edticas para a Mulher do Estado de S\u00e3o Paulo, Adriana Liporoni, fazem alertas cruciais sobre os limites dessas ferramentas:<\/p>\n<ol>\n<li><b>Falsa sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a:<\/b> Aplicativos de checagem privada consultam apenas dados p\u00fablicos de processos j\u00e1 julgados e com condena\u00e7\u00e3o transitada em julgado. Portanto, eles <b>n\u00e3o exibem<\/b> <b>boletins de ocorr\u00eancia em andamento ou medidas protetivas de urg\u00eancia ativas<\/b>, pois esses dados correm em segredo de justi\u00e7a;<\/li>\n<li><b>Sigilo da Lei de Execu\u00e7\u00e3o Penal (LEP):<\/b> Pelo art. 202 da LEP, ap\u00f3s o cumprimento ou extin\u00e7\u00e3o da pena, <b>o hist\u00f3rico do indiv\u00edduo entra em sigilo autom\u00e1tico para fins civis<\/b>. Se um aplicativo privado expuser essa condena\u00e7\u00e3o antiga e gerar preju\u00edzos (como difama\u00e7\u00e3o ou perda de emprego), a plataforma poder\u00e1 responder por responsabilidade civil e danos morais;<\/li>\n<li><b>A responsabilidade do Estado:<\/b> Adriana Liporoni refor\u00e7a que <b>nenhuma ferramenta privada substitui os canais oficiais de prote\u00e7\u00e3o<\/b>. \u201cA preocupa\u00e7\u00e3o das mulheres em consultar antecedentes \u00e9 leg\u00edtima, mas n\u00e3o podemos naturalizar a ideia de que a mulher deve assumir sozinha a responsabilidade pela sua seguran\u00e7a. A seguran\u00e7a p\u00fablica \u00e9 dever do Estado\u201d, ressalta.<\/li>\n<\/ol>\n<h3>Como acionar a rede de prote\u00e7\u00e3o p\u00fablica<\/h3>\n<p>Se voc\u00ea for v\u00edtima de algum crime digital, chantagem, extors\u00e3o ou agress\u00e3o:<\/p>\n<ul>\n<li><b>Preserve o \u2018corpo de delito digital\u2019:<\/b> N\u00e3o apague as mensagens ou o perfil do agressor. Tire prints que mostrem a <b>URL completa do perfil<\/b> (o link do navegador) ou o n\u00famero de telefone completo. O nome de usu\u00e1rio (@) pode ser alterado rapidamente pelo criminoso;<\/li>\n<li><b>Canais de Emerg\u00eancia e Den\u00fancia:<\/b><\/li>\n<\/ul>\n<p><i>*O nome de Iara Rodrigues foi alterado a pedido da personagem para preservar sua privacidade<\/i><\/p>\n<p>[[{&#8220;value&#8221;:&#8221;A rela\u00e7\u00e3o da comunicadora Iara Rodrigues*, 26 anos, com os aplicativos de relacionamento \u00e9 marcada por uma profunda ambiguidade. Ao mesmo tempo que sente necessidade das plataformas para conhecer pessoas, a catarinense detesta o processo de se deparar com pretendentes no ambiente virtual. Ao longo dos anos, a jovem desenvolveu um complexo protocolo de seguran\u00e7a antes de aceitar ver pessoalmente qualquer rapaz com quem trocou mensagens.\u201cQuando percebo que a conversa no aplicativo est\u00e1 indo para a sugest\u00e3o de um encontro presencial, levo a pessoa para outra rede social, normalmente o Instagram. Acho o WhatsApp muito \u00edntimo. \u00c9 como se fossem etapas\u201d, relata. Os passos de Iara incluem pesquisas no Google e no LinkedIn, escolha estrat\u00e9gica do figurino, uso de transporte em que a placa do carro n\u00e3o seja identificada e a checagem rigorosa do local do encontro, preferencialmente um food hall movimentado e que ela j\u00e1 conhe\u00e7a bem.<\/p>\n<p>                                    Nos aplicativos de relacionamento, o medo tamb\u00e9m faz parte do encontro. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/ChatG<\/p>\n<p>                            A experi\u00eancia de Iara traduz um fen\u00f4meno coletivo: a necessidade de criar protocolos r\u00edgidos de seguran\u00e7a para conseguir encontrar pessoalmente quem conheceu na internet. Esse movimento \u00e9 reflexo da migra\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es amorosas para o ambiente virtual (em busca de uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a), combinada aos altos \u00edndices de viol\u00eancia de g\u00eanero que atingem o mundo f\u00edsico.A psic\u00f3loga e psicanalista L\u00edvia Boaretto observa que os encontros rom\u00e2nticos se transformaram em um \u201cfator estressor\u201d sist\u00eamico para as mulheres, pois exigem o planejamento cont\u00ednuo de estrat\u00e9gias de fuga e a conjectura de cen\u00e1rios tr\u00e1gicos antes de abrir a porta de casa:\u201cComo uma mulher pode ir para um relacionamento amoroso, que deveria ser algo leve e bacana, quando o primeiro encontro j\u00e1 se transformou em estresse? Acabamos tendo de nos resguardar tanto que nos fechamos para outras rela\u00e7\u00f5es. Inevitavelmente, isso nos leva a ficar mais sozinhas\u201d, analisa.Pesquisadora sobre viol\u00eancia contra a mulher, L\u00edvia ressalta que o medo n\u00e3o \u00e9 desproporcional \u00e0 realidade: \u201cNem todos os homens s\u00e3o iguais, mas eles precisam entender que h\u00e1 algo muito s\u00e9rio acontecendo. Em 2025, registramos o recorde de d\u00e9cadas em feminic\u00eddios, com milhares de mulheres mortas por homens\u201d, alerta.A preocupa\u00e7\u00e3o demonstrada encontra eco nos dados de seguran\u00e7a p\u00fablica. O pa\u00eds atingiu, em 2025, a marca mais alta de feminic\u00eddios desde a altera\u00e7\u00e3o no C\u00f3digo Penal, em 2015. O F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica contabilizou 1.571 casos no ano passado; um crescimento de 4% na compara\u00e7\u00e3o com as 1.504 mortes registradas em 2024.Minorias e a viol\u00eancia de \u00f3dio nos apps<br \/>\nA inseguran\u00e7a no ecossistema dos aplicativos n\u00e3o atinge apenas mulheres heterossexuais. Para a comunidade LGBTQIA+, pessoas pretas e pessoas com defici\u00eancia (PcDs), o flerte virtual pode virar isca para crimes de \u00f3dio, extors\u00e3o e viol\u00eancia f\u00edsica grave.Especialistas ouvidas pelo TecMundo identificaram que, no p\u00fablico feminino heterossexual, h\u00e1 preval\u00eancia de t\u00e1ticas de manipula\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica como o love bombing (excesso intencional de demonstra\u00e7\u00f5es de afeto para criar depend\u00eancia) e o estelionato amoroso. Em contrapartida, em apps voltados para a comunidade LGBTQIA+, a exemplo do Grindr, os golpes costumam ter desfechos fisicamente mais violentos.A delegada da 2\u00aa Delegacia de Pol\u00edcia de Porto Alegre, Tatiana Bastos, destaca que investiga\u00e7\u00f5es policiais revelam um modus operandi ainda mais ostensivo nessas plataformas:\u201cNa delegacia de combate \u00e0 intoler\u00e2ncia, realizamos a Opera\u00e7\u00e3o Moedor, focada em crimes cometidos no Grindr. Registramos casos de extors\u00e3o, o golpe do \u2018Boa Noite Cinderela\u2019, les\u00e3o corporal grave, invas\u00e3o de resid\u00eancias e espancamentos. A vulnerabilidade de pessoas LGBTQIA+ e o medo do estigma social fazem com que esses grupos virem alvos frequentes de criminosos que usam o anonimato digital\u201d, pontua a delegada, que atua no combate a crimes cibern\u00e9ticos e na prote\u00e7\u00e3o de grupos vulner\u00e1veis.A m\u00faltiplas camadas de preconceito fazem com que pessoas pretas e pessoas trans enfrentem camadas adicionais de risco, que v\u00e3o da fetichiza\u00e7\u00e3o e discrimina\u00e7\u00e3o a cen\u00e1rios em que o agressor utiliza a vulnerabilidade social da v\u00edtima para chantage\u00e1-la.O medo da viol\u00eancia e do anonimato virtual tamb\u00e9m molda a rotina de Jo\u00e3o Vitor Alcantara, 26 anos. Morador de Santo Andr\u00e9, no ABC paulista, o pesquisador sintetiza o dilema vivido por homens gays na transi\u00e7\u00e3o das telas para as ruas: a divis\u00e3o entre a curiosidade de conhecer algu\u00e9m e a necessidade pragm\u00e1tica de criar filtros de seguran\u00e7a.Para mitigar riscos antes do primeiro \u201cdate\u201d presencial, Alcantara estabeleceu um protocolo de investiga\u00e7\u00e3o focado na rede de sociabilidade do pretendente. A regra de ouro \u00e9 nunca aceitar encontros sem antes checar o perfil nas plataformas digitais:Entre amigos da comunidade LGBTQIA+, o receio da extors\u00e3o n\u00e3o \u00e9 hip\u00f3tese te\u00f3rica. O rapaz recorda o caso de um amigo que, ap\u00f3s um encontro casual marcado por app, passou a ser chantageado pelo agressor sob a amea\u00e7a de ter v\u00eddeos \u00edntimos gravados sem consentimento enviados para familiares e para o trabalho.\u201cEle pensou muitas vezes em n\u00e3o ir \u00e0 pol\u00edcia devido ao estigma de ser uma pessoa LGBT e por estar exposto em uma situa\u00e7\u00e3o muito \u00edntima. N\u00f3s o orientamos a buscar a delegacia presencialmente para detalhar a chantagem. Ele fez o Boletim de Ocorr\u00eancia e conseguiu a prote\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, mas \u00e9 o tipo de caso que assusta a todos n\u00f3s\u201d, lamenta.Quando o encontro finalmente acontece em um local p\u00fablico (geralmente, barzinhos ou cinemas de rua que ele j\u00e1 conhece), a vigil\u00e2ncia n\u00e3o se desliga. Al\u00e9m do receio de golpes, surge uma segunda camada de tens\u00e3o: o medo da homofobia urbana ao demonstrar afeto.\u201cExiste uma ansiedade constante na comunidade. Durante o encontro em um local p\u00fablico, observo o ambiente antes de segurar a m\u00e3o ou dar um beijo. Preciso avaliar se estou seguro e se o parceiro se sente confort\u00e1vel. Isso afeta a qualidade do encontro, porque deixa de ser apenas sobre n\u00f3s dois e passa a ser sobre como a sociedade nos olha\u201d, desabafa.Principais pontos abordados na cartilha de seguran\u00e7a para encontros presenciais<br \/>\nO TecMundo\/Estad\u00e3o est\u00e1 acompanhando o movimento de digitaliza\u00e7\u00e3o dos relacionamentos. Para mitigar riscos e garantir que a busca por afeto n\u00e3o termine em trauma ou preju\u00edzo, reunimos as orienta\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas da delegada Tatiana Bastos, da professora de Direito Digital Rubia Ferr\u00e3o, da advogada Gisele Truzzi e da Secret\u00e1ria de Pol\u00edticas para a Mulher do Estado de S\u00e3o Paulo, Adriana Liporoni.Seguran\u00e7a digital e checagem pr\u00e9via<br \/>\nDesconfie do \u2018Love Bombing\u2019 e da urg\u00eancia: O golpista precisa agir r\u00e1pido. Declara\u00e7\u00f5es emocionais intensas em poucos dias, promessas exageradas e apelidos carinhosos prematuros servem para criar uma falsa intimidade. Se houver qualquer pedido financeiro atrelado a um gatilho de urg\u00eancia (viagem, conta bloqueada, investimento), encerre o contato;A t\u00e9cnica da invers\u00e3o da narrativa: Inverta o foco das perguntas. Fa\u00e7a questionamentos detalhados sobre a rotina, o trabalho e a fam\u00edlia da pessoa. Golpistas e catfishes costumam sumir ou bloquear a v\u00edtima assim que percebem que perderam o controle da conversa;Busca reversa de imagem: Utilize ferramentas como o Google Lens para checar se as fotos exibidas no perfil do aplicativo ou Instagram foram roubadas de terceiros ou de m\u00eddias abertas;Varredura nas redes sociais: Analise a coer\u00eancia do perfil. Contas com milhares de seguidores, mas sem intera\u00e7\u00f5es\/coment\u00e1rios reais, ou perfis sem fotos com amigos, familiares e registros de rotina s\u00e3o sinais de alerta;Cuidado com os links e a coleta de dados: Nunca clique em links enviados por pretendentes (mesmo que pare\u00e7am mat\u00e9rias de jornais ou v\u00eddeos). Eles podem conter mecanismos para extrair dados do seu dispositivo. Evite compartilhar dados como data de anivers\u00e1rio, nomes de pets ou local exato de trabalho;Nudes e o perigo das Deepfakes: N\u00e3o envie fotos ou v\u00eddeos \u00edntimos. A legisla\u00e7\u00e3o recente avan\u00e7ou na puni\u00e7\u00e3o da montagem de nudes e uso de Intelig\u00eancia Artificial (IA) para viol\u00eancia psicol\u00f3gica (como o art. 147-B do C\u00f3digo Penal e a Lei 15.487\/2026 no ECA), mas a remo\u00e7\u00e3o completa de um conte\u00fado que cai no WhatsApp ou Telegram \u00e9 praticamente imposs\u00edvel.Seguran\u00e7a f\u00edsica e presencial<br \/>\nEscolha do terreno neutro: Marque o primeiro encontro estritamente em locais p\u00fablicos e movimentados (como shoppings, food halls ou restaurantes centrais). Sugira o local;N\u00e3o aceite caronas nem v\u00e1 a locais isolados: V\u00e1 e volte por conta pr\u00f3pria (de transporte p\u00fablico, t\u00e1xi, aplicativo ou carro). N\u00e3o aceite carona no primeiro encontro e evite ir para a casa do pretendente ou para locais privados locados (como Airbnbs);Rede de apoio e Sinal de Socorro: Compartilhe a sua localiza\u00e7\u00e3o em tempo real com amigos ou familiares de confian\u00e7a. Combine um c\u00f3digo de seguran\u00e7a (um emoji espec\u00edfico ou palavra-chave no WhatsApp) para pedir socorro silencioso. Em bares e restaurantes, memorize o Signal for Help (sinal internacional de socorro feito com a m\u00e3o dobrando o polegar) para alertar gar\u00e7ons ou mesas ao lado;Aten\u00e7\u00e3o redobrada \u00e0 bebida: O consumo excessivo de \u00e1lcool reduz o tempo de rea\u00e7\u00e3o e aumenta a vulnerabilidade. Mantenha o copo sempre sob a vis\u00e3o para evitar o golpe do \u201cBoa Noite Cinderela\u201d. Lembre-se de que as primeiras fases dessa subst\u00e2ncia causam euforia e aparente consentimento nas c\u00e2meras de seguran\u00e7a antes de provocar o apag\u00e3o de mem\u00f3ria;Postagens em tempo real: N\u00e3o publique stories ou fotos com localiza\u00e7\u00e3o ao vivo enquanto estiver no local do encontro para evitar a a\u00e7\u00e3o de stalkers (perseguidores).Verifica\u00e7\u00e3o de antecedentes e a lei<br \/>\nCom a populariza\u00e7\u00e3o de aplicativos e bots que prometem puxar o hist\u00f3rico criminal de pretendentes a partir de dados como n\u00famero de telefone ou chave Pix, surge um debate jur\u00eddico relevante sobre a Lei Geral de Prote\u00e7\u00e3o de Dados (LGPD) e o papel do Estado. O TecMundo fez, inclusive, uma reportagem especial sobre o tema.A professora de Direito Digital Rubia Ferr\u00e3o ressalta que a busca individual feita por uma pessoa f\u00edsica n\u00e3o viola a LGPD:Por outro lado, a advogada Gisele Truzzi e a delegada e Secret\u00e1ria de Pol\u00edticas para a Mulher do Estado de S\u00e3o Paulo, Adriana Liporoni, fazem alertas cruciais sobre os limites dessas ferramentas:Falsa sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a: Aplicativos de checagem privada consultam apenas dados p\u00fablicos de processos j\u00e1 julgados e com condena\u00e7\u00e3o transitada em julgado. Portanto, eles n\u00e3o exibem boletins de ocorr\u00eancia em andamento ou medidas protetivas de urg\u00eancia ativas, pois esses dados correm em segredo de justi\u00e7a;Sigilo da Lei de Execu\u00e7\u00e3o Penal (LEP): Pelo art. 202 da LEP, ap\u00f3s o cumprimento ou extin\u00e7\u00e3o da pena, o hist\u00f3rico do indiv\u00edduo entra em sigilo autom\u00e1tico para fins civis. Se um aplicativo privado expuser essa condena\u00e7\u00e3o antiga e gerar preju\u00edzos (como difama\u00e7\u00e3o ou perda de emprego), a plataforma poder\u00e1 responder por responsabilidade civil e danos morais;A responsabilidade do Estado: Adriana Liporoni refor\u00e7a que nenhuma ferramenta privada substitui os canais oficiais de prote\u00e7\u00e3o. \u201cA preocupa\u00e7\u00e3o das mulheres em consultar antecedentes \u00e9 leg\u00edtima, mas n\u00e3o podemos naturalizar a ideia de que a mulher deve assumir sozinha a responsabilidade pela sua seguran\u00e7a. A seguran\u00e7a p\u00fablica \u00e9 dever do Estado\u201d, ressalta.Como acionar a rede de prote\u00e7\u00e3o p\u00fablica<br \/>\nSe voc\u00ea for v\u00edtima de algum crime digital, chantagem, extors\u00e3o ou agress\u00e3o:Preserve o \u2018corpo de delito digital\u2019: N\u00e3o apague as mensagens ou o perfil do agressor. Tire prints que mostrem a URL completa do perfil (o link do navegador) ou o n\u00famero de telefone completo. O nome de usu\u00e1rio (@) pode ser alterado rapidamente pelo criminoso;Canais de Emerg\u00eancia e Den\u00fancia:*O nome de Iara Rodrigues foi alterado a pedido da personagem para preservar sua privacidade&#8221;}]]\u00a0\u00a0Ciberseguranca\u00a0Novidades do TecMundo | Estad\u00e3o\u00a0<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A rela\u00e7\u00e3o da comunicadora Iara Rodrigues*, 26 anos, com os aplicativos de relacionamento \u00e9 marcada por uma profunda ambiguidade. Ao mesmo tempo que sente necessidade das plataformas para conhecer pessoas, a catarinense detesta o processo de se deparar com pretendentes no ambiente virtual. 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